Pedaços de Bolo
Sentados, recostados na parede do alpendre do velho casarão, recebiam seus pratos de ágata, neles estavam arrumados feijão, arroz, jerimum e farinha, eram dois meninos e ela, pequena, robusta, olhos que mais pareciam maduras e doces jabuticabas, seus cabelos de um negro brilhante que se confundiam com a graúna que surgia ao alvorecer com seu canto estridente. Diante dos três o genitor que deveria escolher quem entregaria ao casal que se dispôs cuidar de apenas uma das crianças que sobraram para ele, a primeira, a primogênita, já teria partido dias antes, com uma prima legítima da genitora, que havia fugido logo após o flagrante de adultério. Talvez ele enganasse a si próprio, querendo parecer justo, a verdade é que a decisão havia sido tomada logo após a partida da desdita, as meninas viveriam distantes de seus olhos, para que não lembrassem a todo instante a desonra por ele sofrida, “menino homem” é mais fácil criar, tudo passa, adquire marra desde cedo, o sofrimento deixa taludo, e as meninas, além de mais delicado cuidar, significavam a materialização da afronta da genitora.
Com ares de portador de grande novidade, dizia:
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Quem comer todo vai passear comigo à cavalo, vamos para Ipueiras, visitar o primo Toinho e a mulher dele.
O mais velho, dos que ficaram, apressava a colherada, que subia à boca abarrotada, o caçula nada entendia, apenas rodava no prato a colher a fim de fazer barulho e bagunça, a menina, porém não sentia um bom presságio, de repente perdera o apetite, tentara não comer para que ele entendesse que não fazia a menor questão de ir, adorava cavalgar com o pai, que a seus olhos era o homem mais bonito que conhecia, mas naquele dia pressentia que não seria um passeio interessante, algo a deixava inquieta.
Enquanto ela vestia seu belo vestido de três babados, estampado com bolinhas miúdas vermelhas, azuis e amarelas, com “rolutê” vermelho nas mangas e nas bordas de cada babado, botões cobertos do mesmo tecido que ficavam nas costas iam sendo abotoados um a um pelo pai, não se sabe o que ele pensava neste que seria o último dia que vestiria sua pequena, ela em silêncio se perguntava, porque estou indo se não comi todo? No alpendre o irmão mais velho esbravejava que havia comido tudo, então por direito ele deveria ir, o pai havia prometido, mas tarde haveria de descobrir que às vezes os pais prometem aquilo que não lhes é possível cumprir.
Após uma cavalgada razoável, eram mais de oito léguas até o destino, chegam à loja do primo Toinho, que se apressa em conduzi-los à casa onde todos os esperam, a menina segue nos braços do pai.
Era início do ritual de entrega, agora haviam quatro pessoas sentadas numa sala ampla, de piso vermelho, teto alto, as cadeiras eram tão diferentes, de ferro e balançavam para frente para trás, enroladas em tiras de plásticos coloridas, existia um corredor imenso que passava pela sala de jantar, tinha uma porta que dava para um quintal na lateral, chegava à cozinha, onde havia um fogão à lenha e terminava no enorme quintal com criação de galinhas, capotes e porcos. A menina depois de descobrir a delícia de balançar numa cadeira que fazia um barulho esquisito cada vez que ia e voltava, agora sentava naquele chão vermelho, frio, encolhida entre as pernas do pai, seu protetor, observava com certa desconfiança aquela jovem senhora, com ares de fidalga, que a olhava com os olhos cheios de lágrimas, expressando ternura e um enorme sorriso que parecia não querer se desfazer, ao lado dela o primo Toinho, de quem o pai tanto falara, parecia sério, preocupado, mal conseguia esboçar alguma palavra, a negociação era dirigida pela esposa que adiantava a conversa colocando os pingos nos is, estabelecendo as regras que deveriam ser cumpridas, indagando sobre os costumes daquela pequena menina, descobriu que faria quatro anos no início do ano seguinte.
Quanto ao registro de nascimento, o genitor esclareceu que já o havia feito e que enviaria depois uma cópia, era necessário para seu ingresso no grupo escolar, que só aconteceria mais tarde.
A jovem senhora se põe de pé e convida a menina para juntas irem apanhar um pedaço de bolo, a menina por um instante hesita, mas que mal haveria em acompanhá-la para pegar um pedaço de bolo para ela e seu pai? Segurou a mão da jovem senhora e percorreram unidas pelas mãos aquele longo corredor, na cozinha foi recebida por um casal mais velho que em pouco tempo haveriam de se tornar avós muito amorosos, as duas se dirigiram à despensa que ficava do outro lado do corredor onde eram localizados os quartos e o único banheiro da casa, com um chuveiro e as paredes laterais eram cobertas com azulejos. São recebidas por uma moça alta, magra e sorridente que descobre um bolo gigante, enquanto cortava uma fatia grossa do bolo fofo, conversava com a menina, não se sabe se era meramente satisfazer a curiosidade peculiar ao povo do sertão ou se no intuito de entreter a pequena para que não percebesse que o tempo passava.
Serviram o bolo acompanhado de um copo de leite com chocolate, ela sentou numa mesa de madeira que existia na despensa, o tempo para as crianças não é medido como dos adultos, não se sabe ao certo quanto tempo ela demorou para retornar, o fato é que quando ela voltou, segurando na mão uma fatia daquele bolo que parecia grande demais para sua pequena e rechonchuda mãozinha, parou incrédula no fim do corredor no momento que avistou a cadeira, em que deixara à sua espera aquele quem ela acreditou jamais se separar, completamente vazia. Veio o choque, desesperada jogou a fatia de bolo, na inocência pueril acreditou ter trocado pai pelo bolo, a menina gritou, esperneou, sentia uma dor que rasgava o peito, soluçava, berrava, o pai deveria estar distante, talvez se estivesse próximo não houvesse suportado e tivesse retornado para levar de volta sua pequena, não se sabe se ela chorou até dormir, ou se perdeu os sentidos de tanto chorar.
Chorava todos os dias pela manhã quando acordava, gritava pelo pai, dormia chamando pelo pai, segundo se conta durante muito tempo era por ele que ela chorava até soluçar, chamava-o primeiro bem alto, depois ia diminuindo o volume até sussurrar, depois de muito penar aos poucos foi esquecendo, as crianças precisam esquecer o que lhes magoa para poderem sobreviver.
Não recordo a data da produção, mas lembro a primeira vez que o exibi a alguém...mto importante p/mim, em 22 de dezembro de 2009